16.3.11

Compreender e Direccionar

Há uns anos andei envolvido no mundo e filosofia das artes marciais. Recordo ainda hoje o que me fez enveredar por uma dessas artes em particular, em detrimento de outras. Nessa, é regra que o movimento de uma força directa, tenha por reacção uma indirecta, redireccionada de modo a imobilizar o atacante. Ou seja, um movimento fluído acompanha o ataque de modo a usá-lo como contra-ataque e auto-defesa. Tanto maior o dano, quanto maior a sua resistência à força direccionada do próprio ataque. "O atacante é que escolhe a força com que se quer magoar. Vai com o dobro do ataque? Terá o dobro da queda" diziam por lá. Isto sempre me fascinou, porque neste ensinamento, não só está implícito o uso da violência apenas quando estritamente necessário, como é uma forma peculiar de contra-ataque onde assenta grande parte da doutrina. A antecipação, o entendimento dos mecanismos e um equilíbrio da postura, são a nossa melhor defesa.  Mas há algo mais a retirar disto. Uma aplicação não física, mas mental. Transpor essa ideia de direccionar uma energia, para o que encaramos diariamente nas nossas vidas, parece-me sensato. Quantos são os problemas que o mundo enfrenta por inflexibilidade ou resistência orgulhosa? Procurássemos pontos de entendimento e não de divergência, e seria certamente possível o passo acompanhar a perna dos acontecimentos. Costumamos atribuir uma dose excessiva de fatalidade irresolúvel a um ou outro problema, esquecendo-nos no entanto, que este, em si, não tem senão a força de uma existência absorvente de medos e projecções atribuídas. É então tudo isto um fluxo constante, onde a não resistência ao obstáculo se dá pela sua compreensão e redireccionamento, retirando-lhe assim essa mesma definição nociva de problema. O que restar disso, cabe a cada um definir.

3 comentários:

du disse...

aikido? ;)

André C. disse...

yup! estou a ver que estás bem familiarizado com isto das artes marciais. praticas boxe não é?

espero que o texto não tenha saído presunçoso ou tenha dado a ideia de selectividade exacerbada, pois nutro verdadeiro respeito e fascínio por todas as outras modalidades.

du disse...

já corri algumas ao longo dos anos, a última foi/é boxe, sim. infelizmente o joelho estourou e desde dezembro que nem uma corrida dou.

aikido é uma das artes mais perfeitas e o teu texto é excelente, nada presunçoso.
temos que observar e aprender com o que nos rodeia, seja de que campo for. há sempre algo a reter.

de resto, sou adepto a da lei do menor esforço e do caminho de menor resistência. concordo com o que dizes, aproveitar a energia das coisas menos boas em nosso favor, para construir.