24.7.11

O culto da fuga #32

Ao fim de quase um mês, voltei para casa nesta terça-feira, dia 19. Não trouxe comigo nenhuma epifania, nem contava com isso, mas esta experiência teve a importância de uma necessidade satisfeita. Coisa que não acontece com muita frequência na minha vida, confesso. Assim que senti ter retirado o que pretendia daquele local, toda a tentativa de prolongar o meu afastamento pareceu-me forçada. Foi a altura certa para regressar.
Ataques pontuais de misantropia não me tornam imediatamente apto para o eremitismo prolongado. Preciso tanto de socialização como de solidão, em doses moderadas. Assim vou gerindo o falso controlo que penso ter sobre a minha sanidade.

22.7.11

Meme Literário

1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
A verdade é que não tenho o hábito de reler livros, mas sou capaz regressar a determinado capítulo em busca daquela ordem de ideias ou daquela frase que me apetece recordar.

2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Assim que o tédio se começa a apossar de mim, não abandono de imediato o livro. Costumo dar-lhe mais um tempo para que se prove capaz de sustentar o meu interesse nas suas letras. Assim uma espécie de ultimato que varia em duração conforme o meu humor. Não gosto de sentir que estou a cumprir uma expiação enquanto leio, e como tal, os que resistem a esta filtragem, são lidos até ao final, os outros, não. Mas quem sabe, talvez um dia regresse a um livro deixado a meio. Pode agora ter outros encantos.

3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Sinceramente, não sei.


4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Muitos. Mas agora tinha na calha o Confissões de um comedor de ópio de Thomas De Quincey. Ainda não o encontrei à venda. Vou procurar melhor.

5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
Não tenho boa memória para cenas finais, mas talvez a do Crime e Castigo, por ter sido um dos livros que terminei mais recentemente. Recordo-a não pela cena em si, mas pela forma como aquele futuro "renascimento" de Raskólnikov foi descrito. Causou-me grande estranheza no final. Apesar disso, é dos meus livros preferidos.

6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Gostava bastante daqueles pequenos manuais sobre o espaço, animais, experiências, corpo humano, explorações, etc. Li também algumas BD´s e desenvolvi um carinho por Calvin & Hobbes que ainda perdura.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Ver resposta à pergunta 2.


8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Crime e Castigo de Dostoievsky, Walden ou a vida nos bosques de Henry David Thoreau (ainda não o acabei, mas vou incluí-lo já nesta categoria), Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo, Silogismos da Amargura de E.M. Cioran, Fernando Pessoa em geral, contos de Allan Poe e Haruki Murakami, A Metafísica do Amor de Arthur Schopenhauer entre outros.

9. Que livro estás a ler neste momento?
De momento vou alternando entre fins e inícios de Timbuktu de Paul Auster, Walden ou a vida nos bosques de Henry David Thoreau, Fome de Knut Hamsun, Pensamentos de Marco Aurélio, Doença Mental e psicologia de Michael Foucault, Livro do Desassossego de Fernando Pessoa, Citações e Pensamentos de Agostinho da Silva, Assim Falava Zaratustra de Nietzsche, Sob os Telhados de Paris de Henry Miller, O Amante de Marguerite Duras e Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago.

10. Indica dez amigos para o Meme Literário:
A x., a Cat, o du, o David, a Ana, a Inês, a Sophie Mishra e a Raquel.

Um abraço ao T. por me ter indicado para este questionário.

18.7.11

O culto da fuga #31

"This is not the sound of a new man or a crispy realization
It's the sound of the unlocking and the lift away"

16.7.11

O culto da fuga #29

Ao contrário do dia que se inicia fazendo frente a um raiar australiano, a noite é parca em sons. Confesso-me surpreendido por isso. Às vezes meto-me à escuta, de ouvido apontado em esperanças à floresta de eucaliptos lá em cima, mas nada. Nem um mocho ou uma coruja-do-mato para continuar as melodias suspensas dos seus comparsas diurnos. Choram gatos à minha porta e ouvem-se lamúrias latidas à distância, mas só o pulsar das minhas têmporas demarca o ritmo nocturno, enquanto cigarras cantam o bom tempo nos intervalos da vida. Então, abro a janela, e uma lua tão cheia faz parecer a noite uma mentira, um fim de tarde prolongado até à infinitude de um novo dia. Fico a olhar.

15.7.11

O culto da fuga #28

Porque nas últimas noites me deu para as crises existenciais do costume, ontem fiz-me o favor de caminhar perto de dez quilómetros. Não quero manchar as boas memórias deste local só porque a minha mente decide colmatar o que ao corpo restou por massacrar. Sucumbi ao cansaço antes do enraizar de outra crise e acordei de manhã no meio de uma gargalhada. Desta vez posso declarar sucesso em vez de loucura.

13.7.11

O culto da fuga #27

Feitas as contas, estou aqui há vinte e dois dias a viver sozinho ao sabor do vento. Tempo e modo de vida suficientes para que hoje, tenha ficado confuso a pensar na data deste ano. Exceptuando aquela incerteza normal que ainda perdura nos dias que se seguem a uma passagem de ano, tal nunca me tinha acontecido com tamanho desfasamento. Isto fez-me meditar sobre o resultado do que seria poder prolongar a estadia para lá do que me é permitido. É com agrado que acolho a dissolução do tempo, e este lapso, foi para mim uma pequena vitória.

10.7.11

O culto da fuga #25

Tenho vista privilegiada sobre o vale formado pelo encontro de duas montanhas, uma onde a minha casa assenta e a outra que a espelha. Essa, surge da minha janela ladeada pela orla de mais montanhas que conforme o afastamento ganham um tom verde-azulado. A interromper a superfície dardejada por florestas de pinheiros e cedros, surgem largas clareiras que parecem formar caminhos até ao topo polvilhado por rochas tão velhas quanto a Terra, e de onde parece brotar a essência do local. Na madrugada, os espaçamentos são preenchidos por um manto de névoa que perdura enquanto o calor do Sol não chega para levar o acréscimo de misticismo. Sinto-me verdadeiramente grato de cada vez que o meu olhar foge para o horizonte. Este acto, aliás, tornou-se um reflexo que tende para o vício, como se ainda em descrença, tivesse de verificar muitas vezes o sítio onde estou.

Impus-me um desafio que dificilmente verei cumprido: só regressar ao Sul quando uma das duas montanhas estiver escalada. Seria o culminar desta experiência. Passo a explicar o impedimento.

De onde o vejo, o topo da montanha atrás da minha casa não parece distante, mas o olhar engana, porque sei que tem quase a mesma altura da outra. Facto que comprovei ontem, pé ante pé, quando iniciei uma caminhada de exploração por dois trilhos da floresta de eucaliptos sobre os quais não me adensei muito por ter surgido a preocupação óbvia: ser vítima de uma emboscada qualquer. É sabido que os crimes de alto calibre, ainda que menos frequentes, chegaram há muito às aldeias mais recônditas, e vão dissipando o que sobra da ideia de refúgio bucólico. Não facilitaria, caminharia de navalha no bolso e de catana na mão, mas nem isso me faria sentir totalmente seguro*. Para todos os efeitos estaria sozinho, e acredito que caminhar com uma faca do tamanho do meu braço não serviria para desencorajar uma tentativa de ataque. Ter de tomar todas estas medidas não me deixa desfrutar tanto quanto gostaria, e isso entristece-me.

Pude informar-me que escalar a montanha da frente seria mais prático por ter o acesso preparado e menos perigoso por existir povoação até boa parte do caminho, ainda assim, advertiram-me para que não o fizesse só. Apanharia daqui um autocarro que me levaria até à outra margem do rio e me deixaria até um quinto do percurso, fazendo eu o restante a pé. Ainda estou em negociações comigo. É que aquela montanha ganha a cada dia o peso e o tamanho da expectativa. Ainda mais aliciante porque concretizável, mas com potencial satisfatório porque sem facilitismos. Veremos se, e até onde serão sacrificados os parâmetros de segurança.

*não sei onde tinha a cabeça quando escrevi isto. não posso simplesmente andar por aí de lâmina na mão como se as pessoas soubessem que é para protecção própria. ainda vou preso por posse de arma branca.

6.7.11

O culto da fuga #23

A minha tendência natural para criar diálogos imaginários tem aumentado nestes últimos dias.

2.7.11

O culto da fuga #22

A rotina pode ter um efeito inebriante, mas não o suficiente por ainda nos parecer lutuosa. É necessário romper com isso assim que possível, nem que por um segundo de nitidez mental que nos capacite de ver a escuridão que consome o brilho que resta. Na fuga goza-se o benefício de uma separação física como potenciadora do resgate de memórias, que nos poderá congratular  na descoberta da chave que descodifique o que tornámos código na nossa vida. Em exteriorização a análise acelera. E não entender isto é reduzir todo o escapismo a mero subterfúgio.

1.7.11

O culto da fuga #21

Tenho um certo fascínio pelo sotaque nortenho. Oiço-o há anos, vincado na fala dos familiares que agora visito com mais frequência desde que cheguei. Acredito que numa conversa de curta duração conseguiria passar por nativo sem cair no erro frequente de muitos, que na imitação, parecem estar a caricaturar o discurso num excesso retórico despropositado. Mas falta-me a coragem de praticar o exercício em quem não conheço, porque se a conversa se prolongasse não saberia bem como sair dessa situação sem revelar a impostura. Seria impossível passar de um domínio claro da fonética a um deslize incontrolável de um tique da forma original de falar, sem sentir um pingo de vergonha que desmascarasse por completo a farsa.

25.6.11

O culto da fuga #20

Junto à entrada da casa onde vivo o retiro, está uma oliveira datada de há pelo menos trezentos anos. Tem a presença notória de um ancião de barba branca, uma sabedoria implícita no silêncio inevitável e uma respeitável teimosia de quem parece ter fintado a morte. A rasgar o tronco verde-escuro surgem uns ramos de tez pálida que atiram as folhas para lá da altura do telhado. Á superfície, um musgo esponjoso apenas perceptível a curta distância, cobre a árvore, dando-lhe ainda assim uma aparência sólida. 
A seu lado sinto-me um estranho que quer pela regularidade das visitas, largar com fervor secreto as amarras de tal definição. Temos tempo.

19.6.11

"I'm lost and hardly noticed, slight goodbye"

A luz à sombra

Metido nos lençóis com o corpo arrefecido pela noite, fiquei a olhar o candeeiro na outra ponta do quarto, virado para uma fresta de mundo que chegava da janela. Cabisbaixo e desligado, cumprindo uma pausa na existência. Não me demoraria a conceder-lhe um pensamento, não fosse a candura lunar que tomou no breu conduzir-me a isso. 
Para quê fechar os olhos à possibilidade de ter como esta a última cena? É poder levar a Morfeu o que Morfeu não pôde ver como eu. Que se inspire a inspirar.

17.6.11

Tremores da Lógica

"(...) há não muito tempo sustentava-se que a Lógica era uma Ciência que manipulava os processos mentais e as suas Leis — as leis do nosso pensamento. Sob esse prisma, não se podia encontrar outra justificação para a Lógica, a não ser na alegação de que não nos é dado pensar de outra maneira. Uma inferência lógica parecia justificar-se pelo fato de ser sentida como uma necessidade de pensamento, um sentimento de que somos compelidos a pensar ao longo de certas linhas. No campo da Lógica, talvez se possa dizer que essa espécie de psicologismo é, hoje, coisa do passado. Ninguém sonharia em justificar a validade de uma inferência lógica, ou defendê-la contra possíveis dúvidas, escrevendo ao lado, na margem, a seguinte frase: “protocolo: revendo essa cadeia de inferências, no dia de hoje, experimentei forte sensação de convicção”.

Karl Popper em A Lógica da Pesquisa Científica

15.6.11

Estou doente

Que saudades senhora amigdalite, faça favor. Estão a seu gosto as minhas tonsilas? Obrigado. Aproveite bem, porque recebi ameaças do médico que diz que a próxima vez que tornar a aparecer será a última. A faca passa para as mãos dele. Eu sei, eu sei, é um empecilho mas que quer?, acusou as minhas amígdalas de inúteis, quando sei perfeitamente que ainda estão capazes de alimentar muitas mais famílias de vírus e bactérias. Sabe se a dona faringite sempre aparece? Há espaço para todos, mas o ponche acabou. Depressa, esconda-se que vem aí o senhor Augmentin!

Estou doente. Dêem-me um desconto.

6.6.11

O culto da fuga #18

Preocupa-me que ir me faça tão bem, que voltar se torne tão mau.

O culto da fuga #17

"Ali de onde venho ninguém me retinha.
Sei que ninguém me espera aí para onde vou.

Pela janela desfilam imóveis as paisagens.
Seria maravilhoso não chegar a sítio nenhum.

Permanecer assim:
viajando de um lugar que já não existe
para outro que nunca existirá."

"O Viajante" de Juan Bonilla
via dias felizes

31.5.11

O culto da fuga #16

"De Belas imagens chegamos a Belos pensamentos.
De Belos pensamentos, a uma vida Bela.
E de uma vida Bela, à Beleza absoluta."

Platão

24.5.11

A verdade da ilusão

Depois do que li, sinto em mim o olhar daquele livro enquanto escrevo o que escrevo para forçar uma separação momentânea, como quem sufoca na verdade da ilusão e puxa de um cigarro um pretexto, matando-se por uma pausa de entender a vida. Há uma ansiedade que persiste mas me vicia na sua leitura, tal e qual a busca pela droga é em si preâmbulo que me satisfaz na certeza de que a terei. Gostar da proximidade do arrebatamento.
As linhas já sabem o que sinto porque lhes reagi ao segredo contado. Celebro em luto a morte de um sentimento agora feito memória. Impossível fingir indiferença depois de assistir à acumulação das perdas. Mas se tanto perdi, mais ganhei com isso. Nestes instantes, vivo.

20.5.11

O culto da fuga #15

Disse no inverno que não aguentava outro verão igual. Fujo em breve porque adivinho o resultado do que seria ficar. Minimizo danos.

15.5.11

O culto da fuga #14

Os pequenos e contidos pedidos de esclarecimento por parte de familiares e amigos variam apenas na forma, mas têm todos conteúdo semelhante se destilar as questões à objectividade do simples porquê, e são o suficiente para entender o remoinho de pensamentos em que sei estarem rodeados desde que sugeri o tal retiro por tempo indefinido. Não vejo razão para grandes surpresas, já que nas minhas últimas conversas me parece ter deixado pistas suficientes deste meu congeminar de uma fuga para um período de vida, tanto quanto possível, eremítica/anacorética. Passou apenas de abstracto a concreto. Ganhei um ânimo como há muito não experimentava assim que vi um início para isto. Uma adrenalina que me fez tremer as mãos e gargalhar ao espelho enquanto delineava mentalmente os passos que penso dar assim que chegar.

*frase inicial já reformulada

7.5.11

O culto da fuga #12

"Solitary, Half Mad" © Patrick Hogan
"A photographic short story.

When I began this essay, I decided to move from the urban area where I had been living to a small cottage in rural Ireland. I was interested in people who lived alone.

For six months, I took pictures around the area. Mostly, I photographed rooms where people lived or died on their own.

I became interested in the capacity we have as people for isolation, and how romantic ideals of solitude and escapism are often more fantastical than reality can offer.

This short essay is about living alone and the relationship between reality and fantasy."

Ver mais aqui
Entrevista completa aqui

6.5.11

Querer Estar

Volto à realidade e sinto o desconforto de quem outrora em quarto quente, foi expulso em fria terra. Trago a lembrança que me desconsola por sê-la, em tempos que forçam a recordação de ter caído na miséria de comparar o sentido exaltado, com a monotonia dos dias insípidos. De que me vale saber estar de passagem, se estou preso nessa sensação?