28.4.10

Reencontrando pela primeira vez

A rua apresentava-se extensa como o tempo, embora não houvessem relógios, nem calendários, nem nada que pudesse demarcar a passagem do mesmo. Chovia. Presenciei aquilo num estranho lapso que me afastou do que me rodeava. A cena foi esta: ela caminhava apressadamente, de chapéu-de-chuva numa mão enquanto a outra balançava livre, prestes a soltar-se do antebraço a qualquer altura e eis que parou progressivamente. Não foi uma paragem súbita como um ataque cardíaco. Foi algo do género: "eu conheço-te de algum lado" pensei eu que pensou a mulher. Ele manteve o corpo imóvel, rodando apenas a cabeça para trás, com olhos surpresos mas ternurentos, vivendo o momento com a calma típica de quem já sabe o que esperar. Ela deu mais um ou dois passos para a frente, não sei precisar ao certo quantos, para depois se deter e olhar novamente. Apercebeu-se que ele não tirou os olhos de si. Estiveram assim, uns segundos que como seria de esperar me pareceram largos minutos. Foquei tudo aquilo como um holofote foca um actor num monólogo dramático e tudo o resto foi sugado pela peculiaridade do que presenciei. Não foram pronunciadas quaisquer palavras... despediram-se com o olhar. Diálogo telepático talvez ouse dizê-lo, absolutamente necessário naquela situação. E foi simultâneamente um "olá", uma conversa docemente emudecida e um "até sempre". Não foi um "até nunca" dito com raiva transbordando dos lábios, mas sim um subtil reencontro numa esquina propensa a surpresas agradáveis como aquela. Viu-a afastar-se, olhou duas vezes para trás, antes de a ver desaparecer numa outra esquina conhecida por incertezas melancólicas. Ficou letárgico. Indolente. Digeriu a situação por entre os bigodes e pôs-se a andar dali para fora nas quatro patas. Foi então que ficou provado para todo o sempre, a existência de amor platónico entre humanos e animais, ali mesmo, naquela rua.

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