15.1.11

A possibilidade de silêncio

Por razões que não estão ao meu alcance entender, quase sinto capaz de afirmar que presenciei o absoluto do silêncio, não fosse estar vivo de corpo para ouvir a pulsação nos ouvidos. Recordo as vezes em que tal aconteceu, a primeira seria eu demasiado novo para saber lidar com a novidade, daí resultar sempre um pânico que mantinha só para mim, de boca fechada não fosse escapar o grito incapaz. Se não sinto estranheza  na noção da sua existência, sinto-a talvez na surpresa de que se faz sempre acompanhar, mas nunca habituar. Não concebo no momento, nenhum pensamento sobre isto que me sobreexcitasse a mente, que a fizesse acreditar no que na realidade não existe, quando tal como se uma onda de natural entendimento me atravessasse, presto uma atenção perturbadora ao silêncio que me rodeia nestas quatro paredes. Paredes essas que sempre presenciaram, mas nunca me confortaram em alturas como essas. Ausento-me de mim, mas falta-me a consciência de lhe tomar o gosto. Consequência da fugacidade. Tenho antes a consciência póstuma de a não ter tido no momento por tempo suficiente para lhe adivinhar o teor. É preambular a sensação. O acontecimento trás consigo o preceder de algo definido, ou antes a falsa ideia de alcance de definição, daí que fique sempre pela vontade de determinar o que não se mostra esclarecedor. Nada consigo retirar da experiência breve senão o coração do peito. Poderá algo carregar em si o peso de pureza sem filtro, que me faça sentir a perda de sensação? E de controlo?

2 comentários:

benjamim machado disse...

gostei. obrigado.

abraço

André C. disse...

eu é que agradeço o comentário.
abraço.