17.2.11

O culto da fuga #5

«Ao anoitecer, chegou ao cimo da montanha, ao planalto nevado de onde se desce, do lado oeste, para a planície. Sentou-se. Tudo, com a noite, se tornara mais calmo, as nuvens firmes e imóveis no céu. Tão longe quanto a vista alcançava, nada senão cumes de onde desciam largos declives. E tudo tão tranquilo, cinzento, crepuscular. Sentiu-se assustadoramente só; estava só, absolutamente só. Queria falar consigo mesmo, mas não o conseguia. Mal ousava respirar; ao andar, mesmo com cautela, os seus passos ressoavam como trovões. Devia sentar-se. Uma angústia indizível assaltou-o, no meio deste nada gigantesco: encontrava-se no vazio! De um salto levantou-se e desceu a correr encosta abaixo. Chegara a escuridão, a terra e o céu confundiam-se numa só coisa. Tinha a sensação de que algo o perseguia, que essa coisa terrível o ia atingir e que os homens não podem suportar: como se a loucura, montada nos seus cavalos, o perseguisse.»

Georg Büchner em Loucura e Quotidiano

Bastou isto, para que na minha próxima visita à livraria, tenha que sair com o livro debaixo do braço. Não sei ao certo em que contexto surge o excerto, mas vou fazer com que assente que nem uma luva à temática da fuga. Esta componente extra da loucura, que sempre foi do meu interesse aprofundar, é mais uma motivação para a compra.

3 comentários:

benjamim machado disse...

este excerto não faz parte da novela dele "Lënz" editado pela hiena editora? se é, é muito bom (o livro). se não é fez-me lembrá-lo.

André C. disse...

sinceramente não sei. é possível que esse seja o nome da história incluída no loucura e quotidiano, onde participam também Jean de La Fontaine, Tchekhov e Luigi Pirandello. assim que tenha o livro, vou ver o título e logo te digo.

André C. disse...

fiz uma pesquisa, e encontrei uma sinopse em francês que abordava um percurso na montanha de um poeta com perturbações psiquiátricas graves, pelo que tenho quase a certeza de que este excerto pertence realmente à novela "Lënz" de que falas.