10.7.11

O culto da fuga #25

Tenho vista privilegiada sobre o vale formado pelo encontro de duas montanhas, uma onde a minha casa assenta e a outra que a espelha. Essa, surge da minha janela ladeada pela orla de mais montanhas que conforme o afastamento ganham um tom verde-azulado. A interromper a superfície dardejada por florestas de pinheiros e cedros, surgem largas clareiras que parecem formar caminhos até ao topo polvilhado por rochas tão velhas quanto a Terra, e de onde parece brotar a essência do local. Na madrugada, os espaçamentos são preenchidos por um manto de névoa que perdura enquanto o calor do Sol não chega para levar o acréscimo de misticismo. Sinto-me verdadeiramente grato de cada vez que o meu olhar foge para o horizonte. Este acto, aliás, tornou-se um reflexo que tende para o vício, como se ainda em descrença, tivesse de verificar muitas vezes o sítio onde estou.

Impus-me um desafio que dificilmente verei cumprido: só regressar ao Sul quando uma das duas montanhas estiver escalada. Seria o culminar desta experiência. Passo a explicar o impedimento.

De onde o vejo, o topo da montanha atrás da minha casa não parece distante, mas o olhar engana, porque sei que tem quase a mesma altura da outra. Facto que comprovei ontem, pé ante pé, quando iniciei uma caminhada de exploração por dois trilhos da floresta de eucaliptos sobre os quais não me adensei muito por ter surgido a preocupação óbvia: ser vítima de uma emboscada qualquer. É sabido que os crimes de alto calibre, ainda que menos frequentes, chegaram há muito às aldeias mais recônditas, e vão dissipando o que sobra da ideia de refúgio bucólico. Não facilitaria, caminharia de navalha no bolso e de catana na mão, mas nem isso me faria sentir totalmente seguro*. Para todos os efeitos estaria sozinho, e acredito que caminhar com uma faca do tamanho do meu braço não serviria para desencorajar uma tentativa de ataque. Ter de tomar todas estas medidas não me deixa desfrutar tanto quanto gostaria, e isso entristece-me.

Pude informar-me que escalar a montanha da frente seria mais prático por ter o acesso preparado e menos perigoso por existir povoação até boa parte do caminho, ainda assim, advertiram-me para que não o fizesse só. Apanharia daqui um autocarro que me levaria até à outra margem do rio e me deixaria até um quinto do percurso, fazendo eu o restante a pé. Ainda estou em negociações comigo. É que aquela montanha ganha a cada dia o peso e o tamanho da expectativa. Ainda mais aliciante porque concretizável, mas com potencial satisfatório porque sem facilitismos. Veremos se, e até onde serão sacrificados os parâmetros de segurança.

*não sei onde tinha a cabeça quando escrevi isto. não posso simplesmente andar por aí de lâmina na mão como se as pessoas soubessem que é para protecção própria. ainda vou preso por posse de arma branca.

2 comentários:

du disse...

go for it mate!

André C. disse...

a balança está a pender para isso. obrigado pelo apoio.